5.12.08

Sem sol

Caroline Pivetta da Motta, gaúcha de 23 anos, está presa há 40 dias por ter pichado as paredes do Prédio da Bienal, em Sampa.

Aparentemente esta foi só a gota d'agua no extenso currículo da menina que tem a pichacão como "meta de vida". Perfeitamente justo e aceitável privar do convívio com a sociedade alguém que pretende assumidamente fazer do vandalismo sua profissão.

Não fosse pelo contexto.

A menina, bastante encrencada pelo seu envolvimento na deploracão de obras públicas, disse que pichar a Bienal foi um ato de protesto em favor daqueles que não tem acesso "a tudo isso aqui".

Além do mais, atesta, "me identifico com o vazio".

Não é de se admirar.

Caroline foi criada pela mãe. Aos 15 anos, após uma tentativa de suicídio mal sucedida, abandonou a escola. Foi parar em São Paulo. Trabalhou como telemarketing. Hoje não tem trabalho nem residência fixa. Consequentemente, perde o direito de responder ao processo em liberdade.

Qualquer semelhanca com grande parte da populacao brasileira de baixa renda nesta faixa etária, é muito mais do que triste coincidência.

"Tanto grafite, quanto picho são underground, coisa do fundão. Não são feitos para exposição em galeria. A parada que eu faço é na rua, é para o povo olhar e não gostar. Uma agressão visual".

O que estamos fazendo com os nossos jovens que tentam? Marginalizando-os da sociedade. Impedindo-os de se expressar. Desvalorizando sua idéias. Emudencendo suas vozes. Trancafiando-os em selas junto a traficantes, ladrões, assassinos. Transformando-os nisto aí. Fomentando suas revoltas.

Destinando-os ao tormento eterno de seus vazios.

Caroline é uma pessoa cheia de ideologias. Um ser pensante. Uma criatura que sente e, por uma questão de alma, tem necessidade de se expressar.

Eu e ela temos uma simples diferenca: ela é do gueto, eu sou do 'point'. O que nos separa é o ambiente, a condicão sócio-econômica e, a esta altura, a imensa diferenca de oportunidades. Tudo isso que os Budistas chamam de Carma.

Se alguém oferesse um pouco de Platão e quicá de Prozac a essa menina. Se alguém compreendesse a necessidade que ela tem de deixar sua marca. Se alguém valorisasse sua ânsia entrelinhada de batalhar por um futuro melhor.

Se alguém enchergasse a menina sensível por tras da pichadora agressiva. Lhe aprensentasse Fernando Pessoa. Nietchze. Khalil Gibran. Se alguém ouvisse seu grito exausto por um socorro que nunca vem.

Se alguém olhasse para além de toda marginalidade impregnada em sua aura e enchergasse a artista. A genialidade em sua essência. A coragem. A ousadia.

Eu tenho uma sugestão. Coloquem-lhe um balde de tinta branca na mão e depois que ela limpar tudo o que sujou, mostrem-lhe que as coisas têm concerto. Que há uma medida para o certo e o errado. Que ela pode expressar-se dentro do que é socialmente aceitável e ainda assim, contribuir para um mundo mais justo.

Deêm a esta menina UMA oportunidade. Acreditem nela. Acreditem neles.

Mas quem, neste país tão desorganizado pode fazer isso?

É infantil achar que o governo tem condicoes de pegar cada Caroline pela mão e reeducar-lhes individualmente. É inútil insistir no fato de que os investimentos neste sentido estão completamente avulsos.

Se o governo não preveniu e não consegue por seus próprios esforcos remediar, onde está quem possa fazê-lo?

Aí é que não está, o Brasil é um país desinstitucionalizado.

Nos países de primeiro mundo, há um setor específico formado por instituicões que tem como funcão prover apoio ao governo.

Liderado por intelectuais, este setor é a cabeca pensante e a mão atuante do coletivo no individual da nacão. É o privado em favor do público.

É nesta rede de seguranca que reside a lacuna entre nós e o G8. Quem tem dinheiro, poder e voz tem inteligência suficiente pra saber que uma base sólida é o único jeito de creser forte.

Se a Caroline fosse, por exemplo, cidadã Inglesa, a atencão aos seus atos - se tivessem chegado a este ponto - seria outra, procurando enchergar o contexto geral, as consequências em grande escala e os potenciais individuais. Realisticamente falando. Para o melhor ou para o pior.

Não é a toa que no Velho Mundo a Arte é valorizada. É uma licão que eles aprenderam com a história e seus personagens reais.

Caroline está presa e eu na Europa.

Duas filhas de um país tropical procurando seu lugar ao sol, fora dele.

Sat Nam ;)

3 comentários:

Eliane disse...

Concordo com seu pensamento ref a solução pelo balde de tinta e, nas mãos de qualquer pichador seria bem melhor para o indivíduo e a sociedade em si.

Anônimo disse...

A Bienal deste ano foi aberta ao público, portanto não foi elitista. Ofereceu cultura ao povo e não cobrou nada.
Pichar a Bienal agride não só aos ricos, à sociedade, mas também aos pobres que apreciam a arte exposta ali.
Por mais democrática que seja, a sociedade terá seus excluídos, e se Caroline é um deles, não é propriamente uma responsabilidade de todos os outros, mas dela mesma, de quem a educou.
E essa mãe que aparece só agora, quando a filha já cometeu um crime? E se ao invés de pichar a garota tivesse roubado ou matado, outras ações previsíveis para quem se julga discriminado socialmente?
É triste ver uma garota presa, mas é mais triste constatar que ela é uma idiota que não foi orientada por ninguém antes de cometer tal ato.
Pichar é um ato egocêntrico e ditatorial, pois impõe aos outros uma agressão, uma ofensa.
Meus filhos nunca pichariam, e se os fizessem saberiam o quanto essa atitude seria reprovável.
Que ela saia imune dessa experiência e deixe de culpar a sociedade por seus fracassos pessoais.

Paula Santomauro disse...

Todas as formas de manisfestção são aceitas. Contudo não vejo como debataer um comentário que se posta anônimo. Mesnos ainda quando rotula alguém de idiota.
Todos somos e o fato de enchergarmos o mundo pela nossa ótica individual e ponto, limita-nos infinitamente e nos transforma e meros quelque-uns enquanto quem ousa, como a Caroline é, definitivamente, alguém!