18.3.08

mais ou menos

Foi então que ele percebeu-se rindo da televisão. Havia valido a pena parcelar em 12 meses toda aquela parafernália em LCD.

Não que a tecnologia tenha mudado sua vida, porém, nessas horas em que as águas de março vão fechando o verão e o outono chega em tons pastéis, não é qualquer coisa que merece uma gargalhada sonora.

Aliás, neste momento, poucas coisas em sua existência diária eram dignas de algo além de um sorriso blasé.

Levantou-se do sofá naquela lerdesa típica. No rosto um resto de sombra da gargalhada televisiva contrastava com o olhar profundo, um tanto analítico.

Ligou o chuveiro e parou frente a seu espelho para fazer a barba.Fazendo aquela barba que sempre fazia, chegou à uma conclusão que, não tivesse sido cômida, teria sido trágica:

Mais ou menos.

Sua barba estava mais ou menos, não super-bem-feita, tão pouco mal. Sua fisionomia também levava este semblante, nem tão bem como tantas vezes, nem tão mal, como algumas outras. Ele próprio poderia responder, caso fosse perguntado "como estava?" lançando mão da profundidade significativa das palavras "mais ou menos!".

Sentiu tamanha estranhesa em descobrir-se assim que, de repente, gargalhou. Gargalhou pensando que seu trabalho andava mais ou menos, sua família ia mais ou menos, sua saúde, hummmmm, mais ou menos. Seu humor alternava entre mais ou menos pra mais e pra menos. Sua vida social, ultimamente, não poderia estar outra coisa que não "mais ou menos".

Até mesmo aquele seu relacionamento, com aquela garota linda, interessante, misteriosa, ia mais ou menos. É verdade que o sexo era mais pra mais, mas o depois era muito mais pra menos.

Enquanto analisava sua vida "mais ou menos" ele ria. Ria olhando sua cara mais ou menos, naquele banheiro mais ou menos embaçado pela água morna daquele banho...mais ou menos. E enquanto ria e via e descobria, aceitava.

Aceitava que tantas vezes antes, deprimira-se diante desta mesma cena. Aceitava que sua vida já fora mais, mas que também já fora menos e que, assim, ele poderia escolher rir-se do mais ou menos que era muito mais do que entregar-se ao menos.

Escolheu seu melhor pijama, foi até a sala de televisão e, decidido, entregou-se à ela...sua tevê a prestação. Enquanto nada fosse demais nem de menos, ele estaria ali, conectado ao fim e a cada estação. E quando a última parcela vencer e o primeiro raio de verão despontar, será ele o cara que MAIS vai aproveitar!

SAT NAM ;)

Um comentário:

Nathália Vitachi disse...

Hahahahahaha!!!
Adorei!