22.6.10

Solstício do Amor sem fim

O dia não acaba nunca. A dor dentro do peito procura qualquer coisa que faça sentir a tristeza mais palpável, mais próxima.

O sol que tanto faz falta por aqui é hoje excessivamente brilhante e durador exaltando a estranheza que eu só quero que passe.

Minha vó escolheu um solstício de verão para contornar a curva da sua estrada.

Morreu dormindo. Do jeito que ela sempre quis. Saudável. Aposto que os exames dela eram melhores que os meus.

Uma morte pacífica, ultimo parágrafo de uma vida equilibrada.

A notícia vem de longe, atravessa o oceano pelo telefone e corta meu coração como uma espada. Não! Não!

Não há palavras, nem abraços, nem socorro, nem solução. Não há consolo pro que já não mais está, já foi, já era. Não há nada a fazer senão abrir as portas da alma e derramar o desconsolo.

Quando o soluço acaba falta tudo que se harmonize com a situação. Não estar lá é como não ter o direito de viver esta passagem totalmente.

A distância chama a culpa e a profundidade da tristeza dá vertigem.

Os conflitos, as dúvidas, as escolhas, remontam um tsunami confuso que deslealmente assola a existência.

Não há mais o que fazer. Não há nada a fazer. Desconcerto. E agora? Telefono. Quero ir correndo, nadando. Mudo o Voo? Telefone de novo. Choro. Choro. Choro. Decisões. Arrependimentos. Culpa, culpa, culpa.

As vozes tranquilas do outro lado dos incessantes telefonemas acalmam. Fortaleza, serenidade, sinceridade. Calma, paciência, fé. Amor. O carinho de quem está perto também faz efeito e a auto-agressão dá espaço há um novo pranto.

Um pranto de saudade. De muito amor. De gratidão.

No filminho das memorias os momentos especiais, os natais, as páscoas, as férias. As geléias, as goiabadas, as conversas.

De repente tenho seis anos, o sol acaba de raiar. Estou no meio da cama deles. Vovó com o terço na mão explica os mistérios gososos - que eu jamais iria entender.

A primeira metade da Ave-Maria somos eu e ela que rezamos. Na segunda, eu e o vovô. Meu mundo é simples e abencoado.

O perito que foi atestar o óbito disse que ela moreu mesmo dormindo. Não houve a menor tentativa de acordar.

Imagino que o vovô tenha chegado ali rezando a segunda metade da Ave-Maria com os abraços abertos “Santa Maria mãe de Deus rogai por nós os pecadores, agora e na hora de nossa morte”… e ela tenha ido com ele. Amém.

Minha mãe tem certeza de que agora que vovó chegou no céu, está havendo uma festa.

A música das bandeirantes não me sai da cabeça :

Sobe as chamas, sobe as chamas. Mais alto! Mais alto! Iluminam, alegram nossas vidas, nossas almas.

Enquanto o ritual vai acontecendo de longe e os tefonemas fazem a ponte, o carinho de perto ajuda.

A música segue se repetindo.

Sobe as chamas, sobe as chamas. Mais alto! Mais alto! Iluminam, alegram nossas vidas, nossas almas.

O sol já não parece mais tão castigante. O céu azul deste dia lindo homenageia esta bandeirante que parte em paz em viverá pra sempre em nosso amor.

Lúcia Braga Arcuri 08/07/1926 - 21/06/2010

Obrigada Vó, pelo amor, carinho e exemplo em curar a si mesma, elevar aos demais e contribuir com a evolução positiva da humanidade. As qualidades da alma são eternas e sua luz vive em nós. Te amo.

O dia demais comprido do ano acaba. E a vida - ainda que eu não saiba como - continua.

'A morte é apenas uma curva no caminho'.

Sat Nam ;)

6 comentários:

Giulio Paletta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Giulio Paletta disse...

Obrigado voce para ser sempre assim profunda e uma poeta do amor total. Obrigado por tudo, Obrigado Vò Lucia.

Nathália Vitachi disse...

Ufa!!! Tive que respirar fundo pra ler até o final... Linda.. No céu tem sempre uma grande festa quando almas iluminadas chegam por lá!! Um beijo com carinho!

My World disse...

ooi, to seguindo, me segue também? sou nova!

Carol disse...

Oi , nossa muito lindo!! tambem tenho um blog, www.intermalucos.blogspot.com , sou nova , e se tiver um tempo passa la e segui e comenta alguma coisa...

Anônimo disse...

Amiga, que linda homenagem a Vo Lucia das geleias!

Mil beijos e saudades,

Rafaella Corazza