2.6.09

No berro

Estava andando por aí e alguém me pediu - no mais embromation english style - informação de uma rua.

Falei uma vez e o cara continuou com cara de tacho. Falei outra, desta vez apontando e ele nada. Falei a terceira e ele finalmente balbuciou 'no english', pelo que suponho, era Árabe. 

Na décima sétima tentativa eu já estava descabelada de tanto gesticular e semi-afônica de tanto me esguelar na tentativa de fazer-me entendida.

Lancei um 'I am sorry' simpático e fui assim, meio de lado, já saindo, indo embora antes que perdesse meu último fio de voz.

Enquanto ia ajeitando o penteadinho todo desfeito e expulsando o bichinho do ahã-rã que se instalara na minha garganta, pensei: bixo, porque é que a gente grita quando alguém não entende o que a gente fala?

Com coisa que se alguém falar Euskara comigo no mais elevado dos decibéis eu vou ser capaz de captar alguma coisa. 

De repente passou uma sirene, não uma sirene qualquer, uma sirene Londrina. Você já ouviu uma sirene Londrina? Nem queira. 

A parada é um misto dos agudos da guitarra do Jimi (Hendrix), mais os altos tons da Suzan Boyle distorcidos mil vezes por um engenheiro de som completamente surdo, cafona e fã de Byoncé.

Enquanto a sirene ia berrando e abrindo espaço fiquei imaginando se as coisas fossem assim, se em vez de usar argumentos, exemplos, força de vontade e inteligência, bastasse qualquer pessoa gritar bem alto quando queria alguma coisa e pronto.

Quando será que o ser humano percebeu que o leão não era o rei da selva por causa do rugido?

Me senti uma mulher das cavernas. Toda arrependida, voltei atrás a procura do suposto Árabe. Ele contnuava lá, estático, no mesmo bat-local. Desta vez era uma senhora que gritava qualquer coisa que ele não entendia.

Cheguei com jeitinho, olhei bem nos olhos dele e falei com calma em português: eu não sei falar sua língua, mas vou explicar devagarinho. Ele fez que sim com a cabeça e fui apontando, mostrando, tirei um papel da bolsa e, literalmente, desenhei.

Não sei quando o ser humano fez a transição do grito do Tarzan pras pinturas nas cavernas. Sei menos ainda como o Árabe consegui entender meu mapa que mais parecia uma árvora careca.

Só sei que ele foi. Sorrindo. Pareceu mesmo ter compreendido. Me olhou no olho, agradeceu e saiu, me deixando ali com o desenho tosco na mão e uma sensação de plenitude que só um dia de sol sabe causar. Uma sensação que não se descreve.

Algo entre gratidão e alegria. Empolgação e nostalgia. Quase como uma ficha que cai. Um sim.

Ainda que os momentos mais divertidos sejam experimentados no volume alto da balada, do show, da euforia,  os mais profundos são vividos em sussurros, olhares e silêncios confortáveis.

Quem tem boca vai Roma. Quem tem respeito vai a qualquer lugar e quem se importa com o outro vai a um lugar que só alma pura e verdadeira consegue alcançar.


Sat Nam ;)

4 comentários:

rafa disse...

dig deep and find wonderful things

rafa disse...

na verdade só queria dizer q tocou e ahnnn se todos fossem iguais a você.

Anônimo disse...

Ah...mas eu CONFESSO que ADORO "If I were a boy..."!!!!

Mari Mari

Nathália Vitachi disse...

É bem a frase: "seja gentil e generoso, sempre!".

Pequenas coisas, pequenos gestos, valem tanto e poucos sabem como fazer!

saudade de te ler!
beijo na alma!!!