8.12.08

Quero

Quero desvestir minha ansiedade. Será possível trocar um quilo de angústia por um pote de paciência? Se der, pede também um vidrinho de fé. Quero estrangular meu medo. Fazê-lo em pedacinhos e mandar pela descarga. Quero um litro de creme de leite fresco pra comer com morangos silvestres enquanto assisto a derrocada da minha falta de confiança. E pode mandar também um champagne, que eu vou comemorar horrores. Quero abrir a janela ao invés da geladeira e descobrir alguma flor que ninguém nunca viu. Todo dia de manhã eu ouço passarinhos. Dois que passam juntos, outro que passa sozinho. Num frio de congelar sereno, com aquelas peninhas finas, fico imanginando se eles cantam ou se gritam por socorro. Quero um casaco sem penas, sem peles, de pêlos sintéticos. Quero um trabalho pra pagar minhas contas, conhecer cada gaveta do mundo e tirar retrato-palavrado de tudo. Uma letra depois da outra e vai mudando o mundo. De repente. Quero viver soletrando, conferindo algum sentido. Sendo em versos. Propositando sem medidas uma - ou várias - idéia repetida. Quero um relógio que marque um tempo só meu. Que me avise a hora certa de ivestir ou deletar. Quero criatividade no meu 'control-vêsar'. Copy-paste, as vezes, é catalizador demais. Quero um tempo mais demorado. Só de sábado. E de férias. Quero tintas glow-in-the-dark pra eu não sentir solidão no escuro. Abraço também serve. Quero telefone barato. Guarda roupa que se recicla conforme o stilo muda. Quero estilo que mude sem mudar essência. Tatuar atenticidade na testa talvez me ajuda a não esquecê-la. Duas malas de trinta e dois quilos abarrotadas de kit kat. Vou comer todos de uma vez. Quero tim-tim agora e um monte de jajá.

Meu propósito eu mudo, mas meu sentido é escrito.

Sat Nam ;)
"Eu preciso acreditar na comunicação, não há melhor remédio para a solidão. É por isso que eu não fico satisfeito se o que eu sinto fica só dentro do peito"

Gabriel, O Pensador

Sat Nam ;)

5.12.08

Sem sol

Caroline Pivetta da Motta, gaúcha de 23 anos, está presa há 40 dias por ter pichado as paredes do Prédio da Bienal, em Sampa.

Aparentemente esta foi só a gota d'agua no extenso currículo da menina que tem a pichacão como "meta de vida". Perfeitamente justo e aceitável privar do convívio com a sociedade alguém que pretende assumidamente fazer do vandalismo sua profissão.

Não fosse pelo contexto.

A menina, bastante encrencada pelo seu envolvimento na deploracão de obras públicas, disse que pichar a Bienal foi um ato de protesto em favor daqueles que não tem acesso "a tudo isso aqui".

Além do mais, atesta, "me identifico com o vazio".

Não é de se admirar.

Caroline foi criada pela mãe. Aos 15 anos, após uma tentativa de suicídio mal sucedida, abandonou a escola. Foi parar em São Paulo. Trabalhou como telemarketing. Hoje não tem trabalho nem residência fixa. Consequentemente, perde o direito de responder ao processo em liberdade.

Qualquer semelhanca com grande parte da populacao brasileira de baixa renda nesta faixa etária, é muito mais do que triste coincidência.

"Tanto grafite, quanto picho são underground, coisa do fundão. Não são feitos para exposição em galeria. A parada que eu faço é na rua, é para o povo olhar e não gostar. Uma agressão visual".

O que estamos fazendo com os nossos jovens que tentam? Marginalizando-os da sociedade. Impedindo-os de se expressar. Desvalorizando sua idéias. Emudencendo suas vozes. Trancafiando-os em selas junto a traficantes, ladrões, assassinos. Transformando-os nisto aí. Fomentando suas revoltas.

Destinando-os ao tormento eterno de seus vazios.

Caroline é uma pessoa cheia de ideologias. Um ser pensante. Uma criatura que sente e, por uma questão de alma, tem necessidade de se expressar.

Eu e ela temos uma simples diferenca: ela é do gueto, eu sou do 'point'. O que nos separa é o ambiente, a condicão sócio-econômica e, a esta altura, a imensa diferenca de oportunidades. Tudo isso que os Budistas chamam de Carma.

Se alguém oferesse um pouco de Platão e quicá de Prozac a essa menina. Se alguém compreendesse a necessidade que ela tem de deixar sua marca. Se alguém valorisasse sua ânsia entrelinhada de batalhar por um futuro melhor.

Se alguém enchergasse a menina sensível por tras da pichadora agressiva. Lhe aprensentasse Fernando Pessoa. Nietchze. Khalil Gibran. Se alguém ouvisse seu grito exausto por um socorro que nunca vem.

Se alguém olhasse para além de toda marginalidade impregnada em sua aura e enchergasse a artista. A genialidade em sua essência. A coragem. A ousadia.

Eu tenho uma sugestão. Coloquem-lhe um balde de tinta branca na mão e depois que ela limpar tudo o que sujou, mostrem-lhe que as coisas têm concerto. Que há uma medida para o certo e o errado. Que ela pode expressar-se dentro do que é socialmente aceitável e ainda assim, contribuir para um mundo mais justo.

Deêm a esta menina UMA oportunidade. Acreditem nela. Acreditem neles.

Mas quem, neste país tão desorganizado pode fazer isso?

É infantil achar que o governo tem condicoes de pegar cada Caroline pela mão e reeducar-lhes individualmente. É inútil insistir no fato de que os investimentos neste sentido estão completamente avulsos.

Se o governo não preveniu e não consegue por seus próprios esforcos remediar, onde está quem possa fazê-lo?

Aí é que não está, o Brasil é um país desinstitucionalizado.

Nos países de primeiro mundo, há um setor específico formado por instituicões que tem como funcão prover apoio ao governo.

Liderado por intelectuais, este setor é a cabeca pensante e a mão atuante do coletivo no individual da nacão. É o privado em favor do público.

É nesta rede de seguranca que reside a lacuna entre nós e o G8. Quem tem dinheiro, poder e voz tem inteligência suficiente pra saber que uma base sólida é o único jeito de creser forte.

Se a Caroline fosse, por exemplo, cidadã Inglesa, a atencão aos seus atos - se tivessem chegado a este ponto - seria outra, procurando enchergar o contexto geral, as consequências em grande escala e os potenciais individuais. Realisticamente falando. Para o melhor ou para o pior.

Não é a toa que no Velho Mundo a Arte é valorizada. É uma licão que eles aprenderam com a história e seus personagens reais.

Caroline está presa e eu na Europa.

Duas filhas de um país tropical procurando seu lugar ao sol, fora dele.

Sat Nam ;)

4.12.08

Metáforas

De presente de natal quero metáforas. 24 cores de sinceridade poética. Versão sashimi. Embrulhe com laco de fita verde, coloque uma borboleta cor de rosa e me entregue junto seu sorriso mais sensacional. De presente de natal quero verdade vestida de música e pincelada de sensualidade. Acenda velas, incenso, vontade. Acenda tudo o que estava apagado dentro de você, só me esperando aparecer. Apague as luzes. Apague os medos, as insegurancas. Respire fé. Respire fundo. Respire apenas. Descarregue em mim sua aliteracao mais sussurrada. Suada. Encoste. Encossste. Encoooooooste. E fique. Não vá. Nunca mais. Promete? Eu vou. Eu sempre acabo indo uma hora ou outra. Mas eu volto. Inteira. Cheia. Pela metade, morrendo de saudade. Só peco que sofra. De leve. De charme. Me chame. Inunda teus sonhos de mim e afoga minha intensidade no seu abraco quente. Seguro. Me salva? 

Sat Nam ;)


3.12.08

A vida? Ahhhhhh a vida!

Não sei se foi o frio profundo ou a profundidade intangível dos meus pensamentos, sei que de repente comecei a sentir o tempo passar. De verdade.

A vida é muito curta. Não, não o clichê, a realidade, a vida é mesmo muito curta e o tempo passa mesmo muito rápido. 

De repente me deu um frio na barriga dos pés a cabeca. Eu vou morrer. Um dia eu vou morrer. E aí tudo vai acabar pra mim. Simplesmente não vou mais existir. Puf. Sumi.

Cadê eu nesse dia? Onde eu vou parar? Sera que morrer é desaparecer? Desintegrar? Des-existir?

Ok, tem o céu, o paraíso, os anjinhos, o purgatório. O inferno. Mas vamos lá, realisticamente falando qual a chance disso tudo realmente exitir? (As mesmas do céu ser open bar!) Quais as possibilidades de alguma parte de mim continuar? Qual parte de mim - se é que - vai pro outro lado de lá?

Não sei porque esta merda de constatacão veio parar assim na minha cara, no meio de uma terca-feira fria, no caminho da aula.

Só sei que eu vou morrer, num dia longínquo espero, e o simples fato de ter que conviver com esta certeza já seria suficiente pra fazer de mim uma louca. 

A aula comeca. Esqueco que vou morrer, volto pro clima da vida. Estudar, trabalhar, ganhar dinheiro. Há de se viver! 

Afinal, morrer é eterno, viver é que é passageiro.

Daqui a pouco a professora volta os olhos pro o relógio e eu sem perceber acompanho o movimento. Para meu des- ou com-tentamento os ponteiros estão ali, no seu climinha básico, na hora certa, no tic-tac impassível.

O tempo passa. Vou morrer um dia. Você também.

Só nos resta ultrapassar o entendimento.

E a vida? Bem, a vida continua loooooouca e liiiiiiinda!

Sat Nam ;)

Acho uma pena se a gente realmente acabar no fim e levar junto tudo o que aprendeu. Se pudesse fazia backup do tanto que aprendo e deixava pra alguém.

Em toda lápide deveria estar escrito: aqui jaz um aprendizado diferente do seu!

Eu adoraria receber de heranca uma colecao de ensinamentos.